O fundo do poço é de areia movediça

Quanto mais você tenta sair, mais fundo o buraco parece ficar. É como tentar andar pela areia movediça, que só te engole mais com cada movimento – com cada pernada e cada braçada – em uma súplica de salvação.

Era assim que eu me sentia 99,9% do tempo em 2018, apelidado por mim como “o ano do vazio”. Um vazio pesado e maçante, embora parecesse oco por querer ser preenchido com qualquer promessa de um futuro melhor ou com qualquer objetivo raso que me colocasse em movimento.

O vazio que não se aceitava, desesperado para não ser mais esse tal de vazio. Claustrofóbico até.

Não o julguem mal. O vazio apenas não entendia porquê estava ali, de protagonista, em pleno 2018, aos meus 23 anos. Desde que eu era criança, o vazio preparou a “minha festa do sucesso” com cautela e dedicação, de forma que a sua presença nunca fosse percebida.

Ele comandava os preparativos da festa há anos e o objetivo era que ele fosse embora assim que o sucesso chegasse e, portanto, que a festa estivesse pronta. Mas, apesar de seguir os passos certos, o vazio ficou – e ainda acabou a noite bêbado em cima do palco, cantando “Evidências”. Com os olhos vermelhos e molhados, e uma bebida na mão. Merda.

O motivo da festa era comemorar a minha trajetória rumo ao sucesso: a escola cara, as notas certas (ou aceitáveis) que tirei na maior parte do tempo, o inglês que aprendi –  e o intercâmbio que seria bom para o currículo que fiz –, o ingresso na faculdade desejada, o estágio no lugar encantado (o motivo pelo qual escolhi a profissão, by the way), o 10 no TCC. Me formei recebendo sorrisos e joinhas da banca avaliadora. A Anitta, do Bola Rebola, até apareceu na festa de formatura. Coisa grande. Finesse.

Então, vejam bem: Não é que o Vazio ficou completamente surpreso quando percebeu que roubou o meu holofote na festa. Ele simplesmente não conseguia encontrar razões plausíveis para explicar porque continuava na festa – e, ainda por cima, fazendo o quadradinho em cima do palco, com a Anitta, durante o “Movimento da Sanfoninha“. (Chitãozinho e Xororó, bêbado e humilhado , aconteceu depois do funk. A tal da culpa).

Ele cuidou dos preparativos justamente para que na festa eu brilhasse pelo meu sucesso. E se eu levasse acompanhante, que fosse a Completude – o meu prêmio pela trajetória que percorri para chegar lá, na tal formatura de jornalismo, depois de ter passado pelo vestibular, provas, muitos foras e, finalmente, meu ~dream job~.

Hoje, acho que o Vazio ficou desesperado com a minha reação para o tal do “lá”, o lugar onde eu deveria chegar. Esse lugar se revelou abafado, escuro, desapontante. Quase ridículo, risível. O desespero, na verdade, não era do vazio (qu vejam só, estava cuidando de mim), mas de uma geração mimada que acredita ter lugar marcado na arquibancada, ou melhor, no camarote do jogo; de merecer algo simplesmente por ter seguido as regras do jogo. Grande merda.

Então acho que o Vazio permaneceu na festa para me ajudar –  no fim das contas, ele sabe como eu amo um bom barraco. O vazio continuou para me ensinar algo que ainda estou tentando aprender: o constante retorno para o agora. Sem linha final, sem chegada. Sem u um sucesso que só pertence ao futuro, a outro lugar. Sem “tudo vai dar certo”. Tudo já é; já está sendo. Qualquer coisa para além disso é projeção.

Nada contra. Eu projeto meu casamento e o nascimento dos meus filhos com um ou outro cara que que vejo na televisão, na rua, ou pior, que só existe na minha cabeça – geralmente esses caras imaginários são retalhos de diferentes homens que vi por aí.

O problema é quando a projeção paralisa o agora. Quando não entendemos que já podemos ser sem o será. Quando a projeção é sufocante, como ela já foi para mim. Quando o desejo é obrigação, como ele já foi para mim.

Eu forcei muitas vezes o desejar. Eu ainda imploro por algum desejo quando quero não quero sair cama, quando não quero ver tv, quando não quero ler um livro. Quando nem Lana Del Rey quero escutar (e, acredite, eu já passei por isso),

É estranha essa não-aceitação do não-desejo. Ou melhor, a forçação do desejar – que apareceu para mim com planos, metas, pedaços de metas. Uma check list. Curso de marketing, de maquiagem, de moda, teatro, pintura (é, sei lá, tentei de tudo um pouco).

Reprodução: @wefallwefly 

Dois anos depois, eu volto para os meus dias de fundo do poço uma vez ou outra e me pergunto se estou andando em círculos. Esse movimento repetitivo parece ser ainda pior que estar parado no vazio – já que uma vez que você sai dele, você sabe também que voltará para lá. Talvez seja saudável perceber que a nossa história não é linear como pensávamos. Mas o vazio nunca é mesmo, honestamente.

Assim como a tristeza nunca é a mesma, a alegria nunca é a mesma, a saudade nunca é a mesma. Aceitar que o vazio talvez seja um sentimento como muitos outros, coloca-o em um lugar mundano, fora do holofote, e dá-nos uma dimensão mais amigável para as ocasiões de dúvidas e faltas. Toleramos a raiva, a angústia e tantas outras sensações de semblante negativo, mas falhamos de fazer isso com o “estar perdida”. Ficamos presos à condição.

Gosto de pensar – mesmo que seja difícil pensar quando estou mergulhada em sentimento – que o vazio seja como as crises de grandes sistemas. A chegada do vazio é como um imperativo de contemplação, o começo de um julgamento. O vazio quer avisar que algo não funciona mais como está e que você precisa buscar novas soluções – não que elas sejam fáceis. Percebo que nenhuma crise é superada com poucas etapas, em pouco tempo. Os resultados parecem acontecer de forma sistemática: o efeito positivo de algo acaba afetando outra área e por aí vamos. Talvez seja assim também no nosso cosmos interior.

Talvez o não-desejo seja necessário. O não-desejo é a flecha lançada que me fez indagar por quê me cobro tanto o “desejar” de certas coisas, afinal. Uma contradição. É desejo se você se cobra para que ele exista? Tenho dúvidas que não.

O não-desejo é a flecha que me fez indagar se eu não quero seguir um roteiro diferente ou, quem sabe, se eu for corajosa, criar o meu próprio roteiro. É a flecha que me fez indagar se eu só não desejo as poucas coisas do mundo que eu conheço. Talvez eu deseje as coisas que desconheço. O não-desejo, dessa forma, é o nascimento de descobertas, de um novo desejar.

É ilusório, então, achar que estamos paradas. Talvez o nosso movimento seja cíclico, mas assim é a natureza. Primavera, verão, outono, inverno. Lua nova, crescente, cheia, minguante. Maré baixa, maré alta. Dia, noite (esses ciclos existem até no nosso organismo, acredite).

Talvez seja a luta contra areia movediça do fundo do poço que faça a gente permanecer nele por mais tempo. Talvez o segredo seja ser tragado pela areia, mergulhar nela para, enfim, chegarmos em uma outra fase – até precisarmos de uma outra reavaliação. Mas sem desesperos: ela não precisará mais ser paralisante porque, com as experiências, entenderemos o nosso ciclo.

Aqui no Perdidas, compartilho de tempos em tempos, a história de quando mergulhei no vazio sem saber. Espero que isso abrace vocês de alguma forma.

Comentários

Uma comunidade de questionamentos

Receba o conteúdo do P/A em primeira mão ­­– e não se preocupe: só mandamos um e-mail por mês!