O skate no Brasil e o empoderamento feminino

 

“Atualmente ele é um esporte olímpico, mas não faz muito tempo em que era proibido andar de skate na cidade de São Paulo”, comenta Beatriz Siraque. A acadêmica de publicidade e propaganda estréia o nosso quadro com o trabalho que defende a modalidade, ainda um tanto marginalizada, como uma ferramenta de resistência e também de empoderamento feminino. “Na minha monografia, explico a importância dos coletivos femininos para que as mulheres que estão dentro do cenário esportivo sejam representadas”, explica.

A análise acontece por meio de um estudo de caso do coletivo Britney’s Crew e de como grupo carioca,  criado em 2015, usa as plataformas digitais para legitimar a participação feminina neste cenário. “O mundo esportivo ainda não está totalmente aberto para as mulheres, mas o coletivo consegue afirmar o seu lugar dentro do skate brasileiro e, assim, abrir espaço para outras de nós”, defende a estudante.

Apesar do tema específico, a linha de pesquisa para realização da monografia era extensa:  começou com uma análise da mulher no sociedade contemporânea e uma observação do papel das redes sociais na construção da identidade de gênero. “Nesses espaços, cada um pode ser o que quer ser, porém, ainda existe um padrão de beleza hegemônico e também padrões de comportamentos para a mulher. Observei como o corpo é importante para a identidade e como há uma pressão social para determinar o que é aceitável em termos de aparência”, explica.

O estudo, então, segue para o questionamento sobre qual é espaço da mulher nos esportes em geral, e, por fim, apresenta uma análise da comunicação empoderada do Britney’s Crew.

Na entrevista abaixo, você descobre o que são construções de gênero, o papel das redes sociais na construção da nossa identidade e, claro, a importância da presença feminina nesses espaços considerados “masculinos”.

“A minha monografia foi a parte mais gostosa de toda a minha vida acadêmica. Pela primeira vez eu fiz uma coisa 100% minha. Eu tenho muito orgulho do meu trabalho porque são raros os estudos que falem de mulheres e esporte, e de como nós usamos o esporte como uma forma de empoderamento. Eu mesma tive muita dificuldade em conseguir achar literatura ou pesquisas para embasar o meu projeto”, revela. Então vem aqui e vamos apoiar a Beatriz e o esporte feminino <3

Como surgiu a ideia de estudar a desconstrução de gênero? E por que a ideia de combiná-la com o esporte e, em especial, o skate?

Pra mim é muito difícil focar em alguma coisa mas, ao mesmo tempo, eu sou extremamente perfeccionista e, então se o meu trabalho não estivesse perfeito, eu não queria entregar. No começo, eu decidi ir pelo caminho mais “fácil”, que seria falar sobre blogs, influenciadores, moda e a desconstrução de gênero – e eu digo fácil por existirem mais produções sobre o tema, que é algo muito mais comentado hoje em dia. Mas simplesmente não estava rolando; estava sendo muito difícil dar continuidade para a pesquisa e isso estava me frustrando muito.

O skate só virou uma paixão durante a faculdade. Foi quando eu comecei a acompanhar de verdade, então, foi algo muito natural trazer essas experiências nas minhas produções acadêmicas (inclusive, eu tenho uma outra pesquisa anterior sobre skate, que foi quando eu vi como é praticamente inexistente o material sobre o tema) e eu acho que foi um amor à primeira vista, sabe? Eu nunca fui do esporte, mas o skate, apesar de eu ter ZERO habilidade para subir em cima de um, me encantou de cara.

A ideia veio quando eu tava indo pro Rio de Janeiro assistir a um campeonato mundial de skate. Na época, eu já tinha entregado toda a primeira parte da monografia e eu tinha cerca de 5 meses pra finalizá-la. Mas aí eu assisti a este vídeo  e foi isso! Na hora eu mandei um e-mail para o meu orientador e falei sobre o vídeo e que eu precisava mudar tudo: eu queria falar sobre o Britney’s Crew, sobre o skate feminino e a desconstrução de gênero nesse meio. Foi uma loucura, mas ficou do jeito que eu queria (só faltou conseguir entrevistar as meninas) e o desenvolvimento foi muito mais leve, mesmo tendo muito menos tempo.

De forma resumida, como podemos explicar o que são construções de gênero? 

Construções de gênero vêm de uma cultura de massas que influenciam na criação de uma cultura hegemônica. Então basicamente, os meios de comunicação (televisão, cinema, celular, etc.) propagam e ajudam na construção da mensagem do que é atribuído como “padrão” dentro de uma sociedade: comportamentos, vestimentas, corte de cabelo, tamanho da boca, tamanho da cintura, entre outros. E a mulher, obviamente, sofre muito mais com esses padrões da cultura hegemônica por vivermos em uma sociedade patriarcal, na qual da mulher ainda se é esperado um certo tipo de comportamento.

Talvez eu esteja fugindo do assunto, mas você citou que as redes sociais dão essa falsa impressão de que podemos ser o que quisermos, mas não é bem assim…  Explica mais sobre isso? 

Talvez eu tenha me expressado mal. Eu acho que nas redes sociais tudo é, sim, mais bonito do que parece ser – é a velha história de “a grama do vizinho é sempre mais bonita”, sabe? Mas eu também sou muito contra a demonização das redes sociais e da internet, do discurso de que temos que passar menos tempo conectados e tudo mais. Querendo ou não, a internet torna as coisas mais democráticas. Sem o Instagram, o Britney’s Crew e tantos outros coletivos não ganhariam a visibilidade necessária.

Eu não acho que a gente precisa boicotar redes sociais, mas, sim, que gente precisa começar a filtrar o que a gente consome na internet, sabe? Tudo isso está diretamente ligado ao nosso off-line e, aliás, acho que hoje em dia não cabe nem mais fazer essa separação (on-line vs. offline), né? E pelo menos na bolha que vivo isso já está acontecendo: muitas pessoas que eu conheço estão usando a internet como forma de empoderamento, e não mais como uma rede de frustrações eternas. Eu mesma já estou no processo de dar unfollow em tudo que me deixa mal por ser quem eu sou!

Por que podemos entender o skate feminino como uma forma de resistência nesse quesito?

Atualmente o skate é um esporte olímpico, mas não faz muito tempo que era proibido andar de skate na cidade de São Paulo. Ele sempre foi um esporte muito marginalizado, sabe? Mas eu acredito que o skate vai muito além da caixinha do esporte: a sua identidade é muito marcada por aspectos políticos e culturais. No entanto, ele ainda é um meio totalmente masculino e, inclusive, machista. O skate é desafiador e é muito bonito ver as mulheres andando de skate e tomando esse espaço, é uma forma de mostrar a força da mulher e entender que a gente pode fazer o que a gente quiser. Estar em um meio no qual constantemente te falam que não é o seu lugar, e mesmo assim, continuar lutando por aquilo é basicamente o ponto principal da resistência feminina.

Qual é a importância dos coletivos femininos nesse aspecto?

Quando uma mulher decide produzir um conteúdo e compartilhar com outras mulheres, cria-se uma rede de apoio e com isso temos a representação. O coletivo, como o nome já diz, é algo de todo mundo, é um grande espaço para que as mulheres cresçam. O coletivo serve para dar suporte para que as mulheres possam ser protagonistas de suas próprias vidas. Falando em especial sobre o Britney’s Crew, é com o caixa do coletivo que elas conseguem, por exemplo, ajudar as minas a pagarem taxas de campeonatos.

São várias mulheres, que frequentemente esquecidas pelo mundo do esporte, se apoiando e se incentivando. Acho que o coletivo é extremamente importante exatamente pelo aspecto do incentivo. Durante a minha pesquisa, eu vi muitas mulheres que pararam de andar de skate por falta de incentivo, mas no coletivo elas podem evoluir juntas. Acho que com o Britney’s Crew, e com outros coletivos, o cenário do skate está mudando cada vez mais.

E aí? Depois de toda pesquisa e estudo, qual você acredita ser o lugar da mulher dentro do esporte?

Acho que de um modo geral o lugar das mulheres é se colocar em uma posição de empoderamento da cena, na qual todo mundo deve se ajudar mais, se apoiar mais e se incentivar a todo momento. Já tem muito empecilho no meio do caminho, sabe? As mulheres definitivamente não precisam de mais um.

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