Voto de silêncio

Desabafei meus pesares às minhas amigas e até disse à minha irmã que agora eu consigo me identificar com a protagonista do livro “meu ano de descanso e relaxamento” porque, no momento, eu também gostaria de passar um ano me dopando para dormir o máximo possível, como acontece no cenário da trama. O motivo? O cansaço e ansiedade estranhas que me acompanham, apesar de estar em casa e o mundo parecer estar em “pausa” lá fora. Aqui dentro, nesta rede, nada está em pausa. Ao contrário: o aceleramento é exponencial, até mesmo para as pessoas que concordam que não dá para ser produtivo neste momento. Nós, ainda bem, estamos nutrindo a consciência de que essa não é uma experiência gratuita e sem razão, mas uma batalha contra uma pandemia – literalmente existem milhares de pessoas batalhando para superar um vírus desconhecido e outras tantas milhares cuidando destas fragilizadas. “Não é procrastinação se o mundo está acabando”, diz uma frase hilária que viralizou. Falamos isso, mas não incorporamos isso. Uma prova: as pessoas só aumentam a quantidade de lives & outros conteúdos compartilhados. Precisamos de mais, mais, mais! Apesar da identificação, acredito que falte uma ou outra chavinha virar: se achamos que precisamos aumentar a nossa presença ou até reforçar aqui e ali uma mensagem (mesmo as bem-intencionadas), então é porque em algum nível ainda pensamos que não podemos ficar parados, que acreditamos na produtividade como um fim. Acreditamos ainda em um tem-que: “tem-que-entender-que-é-isso”.

Nunca quis tanto um silêncio por aqui, um silêncio que combinasse com o da cidade atrás da minha janela. Um silêncio não só meu, mas um desejo mimado de um silêncio também dos outros.

Será que essa conversa que queremos começar ou essa idéia que queremos publicar agora-já-depois-daquela não pode esperar um pouquinho para acontecer? Ou será que ela não pode pelo menos se alongar, ser aprofundada? Não digo isso de uma forma moralista, de desmerecer um tipo ou outro de assunto. Distrações são bem-vindas. Falo de quantidade. Será que a cada dia preciso começar uma nova conversa? Será que a cada dia preciso começar cinco dez, tipos diferentes de conversas? Imagine! Se a cada amanhecer eu começo uma conversa, o meu amigo começa outra e o meu perfil predileto começa dez conversas variadas, talvez ninguém esteja conversando de fato.

E, ó: não falo isso como o Perdidas Anônimas. Falo como a Chames, o serzinho humano por detrás desse anônimo, organização impessoal.  Cada uma de nós viramos uma “mídia” simplesmente por estamos ativos no Instagram – não importa se você tem 20 ou 1.000 seguidores. Cada uma de nós temos a chance de alcançar qualquer pessoa com as nossas mensagens. Pensando nisso, vale repensar os estímulos que recebemos: será que eu estou compartilhando por inércia coletiva, ou seja, o outro faz e eu reproduzo? Como se fôssemos uma fileira de dominó: um cai, o outro vai atrás. Será que eu não posso me empoderar das minhas reações também? Existe muito poder na nossa reação. Aqui, nas redes sociais, reagir com inteligência pode ser algo tão simples quanto silenciar ou parar de seguir uma conta, ou, quem sabe, até mesmo tirar um tempo de folga.

Como o mundo avisa, precisamos de cautela. Talvez estejamos desgastando o compartilhamento online justamente porque o compartilhamento físico está inexistente. Talvez esse seja um período que peça um pouco ausência. Podemos tentar fazer as pazes com o estar ausente, que ganha conotação negativa porque estamos em um mundo que pede o tempo todo que a gente se reafirme como pessoa, como identidade presente. Esse é o meu voto de silêncio. A gente se vê em breve.

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